Compreender o crescimento económico como «o fim em
si mesmo» de uma colectividade é um erro e mais o é se se condicionar
deliberadamente a liberdade colectiva e individual tendo como único proveito
essa prosperidade económica. Uma sociedade deve ter vida para além da sua
economia e, seguramente, uma vivência colectiva muito para além do seu
crescimento económico. Amarrar uma sociedade ao seu desempenho económico
colectivo é limitá-la ao quantificável, às estatísticas… é pintar o arco-íris a
preto e branco.
Muitos dos estudos empíricos sobre o impacto da
escolha de um regime democrático no crescimento económico são inconclusivos e a
maioria refere apenas a insignificância estatística do efeito da escolha do
regime político no crescimento económico. Com efeito, variáveis como o
investimento em capital físico, em capital humano e em projectos de investigação
e desenvolvimento (I&D) são muito mais relevantes do que a escolha do
regime político quando se trata de quantificar o impacto no crescimento económico
de um país [Ver, por exemplo: Sirowy e Inkeles (1990);
Romer (1986); Lucas (1988); Rebelo (1991); Aghion e Howitt (1992)].
Há mesmo autores que obtiveram uma relação
marginalmente decrescente (ao longo do tempo) entre a escolha de um regime
democrático e o crescimento económico, apesar da insignificância estatística da
variável política [Ver Sirowy e Inkeles (1990); Przeworski e Limongi (1993)].
De referir, porém, que outros estudos realçam o impacto (estatisticamente
significativo) da escolha de um regime democrático na redução das desigualdades
sociais, mas são os próprios autores desses estudos que referem que outras
variáveis podem ter igual impacto [Ver discussão in Barro (1996)].
Ora, não é devido a resultados econométricos pouco
animadores quanto à relação entre a democracia e o crescimento económico que se
devem colocar em causa as inúmeras vantagens de um regime político que permite
uma vivência colectiva num ambiente de tolerância e respeito mútuo e onde a
escolha eleitoral dos representantes dos cidadãos se efectua de forma mais
transparente, reflectindo para o bem, ou para o mal, os desejos e os anseios
dos vários eleitores.
Porém, é fundamental que a democracia seja acompanhada
de uma cultura de responsabilização daqueles que são escolhidos para responder
às expectativas dos eleitores, cultura que deve acompanhar a edificação de
qualquer sistema democrático, sob pena deste se tornar num exercício mecânico
inútil e contraproducente, assim como o reflexo de um vazio social, marcado por
um certo umbiguismo pernicioso dos
vários intervenientes e agentes políticos.
De facto, quando uma sociedade escolhe um sistema
democrático para balizar a sua interacção política não pode esperar que este
sirva simplesmente como meio para alcançar o crescimento económico. A escolha de
um regime democrático por uma sociedade deve ser sinónimo de maturidade
política, de desejo genuíno de partilhar e beneficiar de uma liberdade de
expressão, de reunião, de opinião, de manifestação… enfim, de uma liberdade de
viver ouvindo e pensando com os outros, liberdades que apenas um regime
democrático permite.
Como qualquer historiador económico reconhecerá, o período dourado da economia portuguesa,
sobretudo da sua indústria, viveu-se entre meados da década de 1950 e os meados
da década de 1970 [Ver Neves (1994) e Pinheiro (1997)], nunca tendo o país
registado desempenhos económicos excepcionais nas suas poucas experiências
democráticas, primeiro no início do século passado e depois do último quartel
desse mesmo século até ao presente, apesar da ilusão dos finais da década de
1980 e da década de 1990, alavancada pela restante economia mundial (Silva
Lopes, 1996 e 2002).
Já nos primeiros anos do século XXI a economia
portuguesa tem registado um comportamento anémico, com particular relevância
nos últimos quatro anos, também devido às particularidades entretanto vividas
pelo país, as quais, de resto, infelizmente, não são novidade em ambos os
períodos de experiência democrática, tendo o país recorrido a três resgates
internacionais desde a realização das eleições de 1976, com especial destaque
para a intervenção entre 1983 e 1985 e a mais recente, de 2011 a 2014.
Contudo, tais avaliações céleres e conclusões
superficiais podem ser perigosas e convém, mesmo, saber se a organização
política de uma sociedade é mais ou menos importante do que o seu desempenho
económico, e nesta hipotética hierarquia não tenho dúvidas em considerar a
liberdade de expressão política mais relevante do que o crescimento económico,
mas sei igualmente que esta não é nenhuma premissa invulnerável, nem sequer uma
escolha unânime, mas é exactamente esta diversidade de pensamento que está
implícita na vivência colectiva de um regime democrático.
Quantificar o impacto desta diversidade e da liberdade
política no crescimento económico nem sempre favorece a escolha de um regime
democrático, mas quando este assenta em pilares sólidos, a consequente transparência
e a saudável dialética, respeito mútuo e a livre interacção política entre
todos, potencia a criatividade e a maturidade da vivência comunitária,
representando um verdadeiro avanço civilizacional.
Sendo assim, a falácia de que a escolha de um regime
político democrático é um factor fundamental para o crescimento económico tem
que ser desmontada no próprio debate político, o qual deve abordar esta
problemática sem dogmas, nem preconceitos. Pela sua natureza, a escolha de um
regime democrático não pode estar ao serviço de indicadores económicos, mas sim
ao serviço da livre expressividade colectiva, sendo que esta última me parece indubitavelmente
mais relevante do que qualquer estatística, ou desempenho económico.
Referências Bibliográficas
-Aghion, P. e Howitt, P.
(1992); A Model of Growth Through Creative Destruction; Econometrica,
Vol. 60, (2): 323-351;
-Barro, Robert (1996); Determinants
of Economic Growth: A Cross-Country Empirical Study; NBER Working Paper
Series, 5698;
-Lucas, Robert (1988); On
the Mechanics of Economic Development; Journal of Monetary Economics, 22,
3–42;
-Neves, João
César das (1994); The Portuguese
Economy: A Picture in Figures, XIX and XX centuries, Universidade
Católica Editora, Lisboa;
-Przeworski, A., e
Limongi F., (1993); Political Regimes and Economic Growth; Journal of
Economic Perspectives 7 (3):51-70;
-Rebelo, Sergio (1991); Long-Run
Policy Analysis and Long-Run Growth; Journal of Political Economy, 99 (3),
500–521;
-Romer, Paul (1986); Increasing
Returns and Long Run Growth; Journal of Political Economy, 94, 1002–37;
-Silva
Lopes, José (1996); A Economia Portuguesa
desde 1960, Lisboa: Gradiva, Trajectos Portugueses 36;
-Silva
Lopes, José (2002); A Economia Portuguesa
no Século XX, (pp. 269-323) in
Fernando Pernes (coord.) Panorama da
Cultura Portuguesa no século XX, Vol. I, Porto: Afrontamento, Porto 2001 e
Fundação Serralves.
-Sirowy, L., and
Inkeles A., (1990); The Effects of Democracy on Economic Growth and
Inequality: A Review; Springer, Comparative International Development 25
(1):126-157;
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