"Como o Para lá do Homo Economicus é um blog que prima pela diversidade e por partilhar
opiniões de forma livre, bem como fomentar a qualidade de conteúdos para
os seus leitores, partilhamos um artigo alargado sobre a situação grega enviado por um dos nossos
leitores na Húngria. Fomentamos a partilha livre de opiniões. As opiniões
partilhadas são da responsabilidade do autor do artigo, o qual o Para lá do Homo Economicus
tem a amabilidade de partilhar."
A Grécia é um país notável cheio
de pessoas maravilhosas, mas no que respeita a desenvolvimento e
governabilidade, o lugar é claramente muito fodido. E é assim há já muito
tempo, pelo menos algumas
décadas. Isso
nunca foi segredo. Quem já visitou Atenas sabe que tem muito mais em comum com
Bucareste ou Istambul do que com outras capitais mais organizadas da Europa
Ocidental.
O Euro foi e deve
ser
um projeto (principalmente) político.
A fim de vender a ideia da moeda
comum às elites do Norte da Europa, os arquitetos do euro impuseram aos países
candidatos rigorosos "critérios de
convergência"
e, em particular, as condições do Pacto de
Estabilidade e Crescimento. No entanto, na prática, estes critérios sempre foram
interpretados de forma flexível e a
maioria dos membros da zona euro quebraram os seus compromissos,
incluindo a Alemanha e a França. O Euro foi um projeto de unificação, e
esticou-se (não sem razão, na minha opinião) ao ambicionar uma União grande.
A Alemanha e a França podem ter
faltado aos seus compromissos de Estabilidade e Crescimento aqui e ali, mas não
estão fodidas como a Grécia está. Os Governos Gregos - não o atual,
muito denegrido Syriza, mas décadas de antecessores - trataram o estado como
uma teta da qual clientes e amigos dos vencedores eleitorais podiam chupar. O Estado Grego tem sido um devedor
oportunista e obscuro, sem dúvida, o tipo de personagem a quem ninguém iria
emprestar dinheiro com grande expectativa de vê-lo de volta.
E, no entanto, foi
precisamente isso que os banqueiros de países da zona euro relativamente
não-fodidos fizeram! Estas pessoas não são ingénuas. Eles sabiam que o Estado
Grego era duvidoso. Mas,
também precisamente por ser duvidoso, antes da crise financeira, pagava taxas
de juro ligeiramente mais elevadas do que as de países mais seguros na zona
euro.
Ao mesmo tempo, a regulamentação
bancária europeia atribuía ratings de
risco zero à dívida de todos os países da União
, fazendo com que fosse altamente
vantajoso para os bancos: 1) gerar altos volumes de depósitos para depois, 2)
simplesmente comprar dívida soberana. Consequentemente, empréstimos a países da
zona euro não tinham (oficialmente) risco de incumprimento e não tinham risco
aliados a alterações na taxa de câmbio (isto é, bancos na zona euro, não
ficariam em grande risco se a moeda em que a divida estava denominada
desvalorizasse já que todos usavam o euro).
O sistema financeiro europeu foi
arquitetado para fazer com que empréstimos á Grécia - e Espanha e Portugal e
Itália - fossem uma máquina de dinheiro para os banqueiros, com baixo risco a
médio prazo para as suas carreiras. Divida duvidosa tende a ter um
elevado volume de emissão e por isso não faltou divida para os banqueiros
comprarem.
Eles sabiam
perfeitamente que havia um risco a longo prazo, uma incerteza, uma ambiguidade
construtiva, mas,
emprestaram de qualquer maneira e por fazê-lo levaram para casa salários
e bónus muito agradáveis.
Emprestar
era convencional. O consenso geral era de que o risco associado ao crédito se
tinha evaporado e que preocupações eram antiquadas, a Europa era forte e podia
resolver o problema. E, se as preocupações acabem-se por se revelar
justificáveis, quem fez os empréstimos sabia que já não estaria em posição de
ser responsabilizado (IBGYBG).
Quando a música
parou, quando a casa global de cartas(ões) de crédito entrou em colapso, os
líderes europeus enfrentavam uma escolha. Eles tinham intencionalmente aceite
estados fracos na zona euro, porque genuinamente, até mesmo nobremente,
quiseram construir uma grande e forte Europa unida. Quando o fizeram, eles anteviram
que haveria crises. A Europa unificada, sempre disseram, seria forjada por uma
crise a crise. A coisa certa a fazer pela Europa no momento teria sido
identificar os erros de regulação e incentivos desalinhados que levaram a
empréstimos libertinos e permitiram corrupção e desperdício entre os mutuários,
e corrigir estes erros. Os bancos que fizeram maus empréstimos reconheceriam as
perdas. Os próprios bancos teriam depois de ser reestruturados ou socorridos.
Mas, "a
reestruturação de um banco" é um eufemismo para a imposição de perdas a
credores ricos. E resgates bancários são humilhações explícitas de elites;
momentos em que a máscara cai e os meios normalmente subtis através dos quais o
Estado preserva e melhora o conforto dos confortáveis dão lugar a muito
visíveis, muito impopulares, transferências diretas de fundos.
A escolha dos
líderes europeus era então preservar a união ou preservar a riqueza, prestígio
e status da comunidade das pessoas
que eram seus conhecidos e amigos (e eles próprios), mas que são inteiramente
não-representativos da opinião pública europeia. Escolheram-se a eles mesmos.
As instituições formais da UE mantém-se, mas a comunidade europeia vai caindo
rapidamente.
É difícil exagerar
o quão profundamente os líderes da Europa traíram os ideais de integração
europeia na forma como lidaram com a crise Grega. O primeiro e mais fundamental
objetivo da integração europeia foi o de atenuar as linhas de sentimento e
interesse nacional através do comércio e da interdependência, a fim de evitar
fraturas ao longo das mesmas linhas étnico-nacionais que no passado fizeram do
continente um cemitério, duas vezes. Essa é a primeira coisa, a regra
principal, que qualquer pessoa que alega representar o projeto europeu deve
respeitar: Nós resolvemos problemas como
Europeus em conjunto, não como nações em conflito.
Note-se que na
nossa narrativa, até agora, realmente não observamos uma dimensão nacional
significativa. Erros de regulamentação e questões de incentivos perversos
encorajaram bancos a fazer maus empréstimos. Os bancos espanhóis emprestaram
para compras de imobiliário sobrevalorizado; os bancos alemães emprestaram a um
estado que sabiam ser fraco. Devido a desequilíbrios nas contas correntes da
zona euro - persistentes e difíceis de reverter sem atenção política - sabia-se
que, por uma questão de aritmética, teriam que haver fluxos de crédito a larga
escala, o que propicia a uma certa indiferença em relação à qualidade desse
crédito. Estes eram problemas Europeus e não problemas nacionais. Mas eram problemas Europeus que
foram fermentando enquanto os líderes do continente saboreavam e recebiam os
louros de uma prosperidade fantasma. Quando o dique se rompeu, em vez de
reconhecer os erros e trabalhar para resolvê-los como uma comunidade, as elites
da Europa - políticos e funcionários públicos, banqueiros e financeiros -
desviaram a culpa da pior maneira possível. Eles transformaram um
problema de arquitetura financeira sistémico numa disputa entre nações
Europeias. Eles
ressuscitaram os fantasmas que os seus antecessores passaram meio século a
tentar exorcitar. Shame. Shame. Shame. Shame.
Até à crise
financeira, várias pessoas, incluindo eu, sentiam-se ambivalentes quanto ao
famoso "défice democrático" da União. Por um lado, acredito que a boa
governação requer fiscalização e participação do público geral. Por outro,
antes da crise, eu estava disposto a dar o benefício da dúvida á euro-elite.
Sou um americano nascido em 1970
mas a minha vida é em grande parte moldada e circunscrita por acontecimentos na
Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Fui alimentado com uma dieta de
"nunca mais". Neste momento, escrevo estas palavras na casa de campo
do meu avô, na Roménia,
que a minha mãe trabalhou obstinadamente para recuperar
num ato de pura vingança por aquilo que a história deste continente fez ao seu
pai.
Eu estava inclinado a
apoiar os malabarismos democráticos da Europa quando o objetivo era diminuir e
difundir a possibilidade, até aqui ainda palpável, de reversão ao conflito
étnico-nacional. Mas ver instituições europeias a optar de forma precisa e
decidida por caminhos que levam à polarização ao longo de fronteiras nacionais
radicalizou-me e fez de mim um populista (tal como análogas traições da
liderança política do meu próprio país têm feito). Se eu fosse grego,
por esta altura já seria certamente um nacionalista.
No que diz respeito à Grécia, a
coisa exata que as elites europeias fizeram que levou aos eventos atuais foi
substituir dívida privada por divida pública durante o primeiro
"resgate" em 2010. Antes desse evento, era óbvio que a culpa
era multipolar, de credores e de devedores. Os bancos, na França, na Alemanha,
estupidamente emprestaram,
não
apenas à Grécia, mas também através de
investimentos em
CDOs sintéticos da Goldman Sachs e qualquer outra
porcaria em que
pudessem investir com baixo rating de
risco.
Em 2010, a União Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI lavaram um resgate
de bancos, na sua maioria estes bancos franceses e alemães, através do fisco
Grego. O dinheiro do resgate fluiu para a Grécia para depois
simplesmente fluir para os bancos frágeis. Assim de repente, os bancos foram
absolvidos. Foram muito poucos os maus empréstimos que ficaram nos livros de
credores europeus. Todos os envolvidos ficaram limpos, exceto um. No final, de
um lado ficaram as instituições, a "troika", claramente “os
bonzinhos”, prestativos com as suas generosas oferta de fundos. Do outro ficou
a Grécia.
O que tinha
originalmente sido uma partida de luta livre na lama com vários lutadores
imundos, foi transformado num grupo de limpinhos a acusar um só penitente
imundo (ou uma criança impertinente
e mal-comportada,
como lhe chamam aqueles que têm as suas poupanças em bancos recém-resgatadas
graças ao resgate Grego, quando estão de bom humor). [
Antídoto]
Entre os credores,
um grande lema agora é "risco moral": Nós não podemos ser muito gentis com a Grécia, não podemos
perdoar a sua dívida com poucas condições impostas porque, que tipo de precedente iria isso criar? Se os devedores de risco
(outros países), ficarem com a impressão de que se podem superendividar sem
consequências, se Espanhóis e Portugueses populistas perceberem que podem fazer
melhor negócio talvez comecem a fazer exigências. Talvez se continuem a
endividar à espera de um perdão da dívida e acabamos com os países bonzinhos
Europeus, que verdadeiramente produzem e poupam, na bancarrota.
Que lata. Que porra
de lata. Estes credores, que já recuperaram quase todo o valor que tinham
investido em empréstimos irresponsáveis,
agora temem que se formos bons para outros não o merecem, acabamos todos na
bancarrota. Fico com vontade de referenciar uma história cliché de um miúdo que
mata os pais e depois pede clemência porque é apenas um órfão. Mas o problema é
que isto seria um eufemismo para a ocasião.
Fica aqui registado para os
leitores que fazem parte da muito sofisticada e trabalhadora elite europeia,
que o “risco moral” se aplica tradicionalmente aos credores. O termo
descreve o risco que existe para a economia real se os investidores não
conseguem discriminar entre projetos produtivos e projetos não produtivos.
Emprestar dinheiro ao Estado Grego, corrupto e oportunista, que esbanja
recursos em atividades que muito dificilmente iriam gerar o crescimento
necessário para a dívida ser paga? Este é precisamente, exatamente, o porquê da
existência do termo "risco moral", é isto que tenta desencorajar. E
vocês fizeram isto. Sim, o Estado Grego era um devedor indigno e às vezes sem
escrúpulos. Noticia de última hora: O
mundo está cheio de entidades indignas e sem escrúpulos dispostas a receber o
vosso dinheiro e chamar á transação um "empréstimo". Sempre será
assim. É por isso que a responsabilidade por, e as consequências de, emprestar
mal devem cair sobre os credores e não devedores. Há um conto que diz que o
devedor deve pagar, que pecou e deve ser punido. Há um outro conto que diz que
o credor deve investir sabiamente, e que se investiu mal os seus recursos deve
ser punido. Podemos escolher qual o conto que mais usamos para dar sentido ao
mundo. Devemos usar ambos até uma certa medida. Mas se enfatizarmos a primeira história, acabamos num
mundo cheio de maus empréstimos, desperdício de recursos e devedores presos,
metafórica ou literalmente. Se enfatizarmos a segunda história, acabamos
num mundo onde maus créditos nunca são financiados.
Mas os Gregos não
querem agora pedir mais? Não é por isso que temos agora todo este alarido? Não.
Os Gregos precisam de pedir mais dinheiro emprestado porque têm que pagar
empréstimos prévios, e têm tentado chegar a um acordo acerca disso, em vez de
levantar o dedo do meio e ir embora. O próprio Estado Grego não está a tentar
expandir os seus empréstimos. Os cidadãos e as empresas Gregas gostariam de
expandir os empréstimos do país indiretamente, mediante a retirada de euros dos
bancos Gregos, que estes bancos não podem entregar a menos que sejam
autorizados a ampliar os seus empréstimos junto do BCE. Ou seja, os cidadãos da
Grécia estão precisamente no mesmo lugar dos cidadãos da França e dos cidadãos
da Alemanha em 2010, em risco que as suas poupanças na forma de depósitos
bancários não sejam reembolsadas. Para os cidadãos Franceses e Alemães, deu-se
um jeito.
Sem recorrer aos estereótipos étnico-nacionais que as elites Europeias têm vindo
a ressuscitar, qual é a justificação para um professor Grego perder as suas
poupanças que não se poderia aplicar a uma professora Francesa em 2010? Porque
os Gregos são responsáveis, como indivíduos, pelo que fizeram os seus governos?
Bem, então eu mereço ser fuzilado por o que o meu governo fez no Iraque e
noutros lugares. É por aí que queremos ir?
Mas então, se os
cidadãos não são responsabilizados pelo crédito mal parado dos seus governos,
como vão os países no futuro contrair crédito? Da mesma maneira que as empresas
podem angariar fundos sem uma promessa de retorno desses fundos. As pessoas investem em ações, não
porque tenham uma espada de Damocles com que ameaçar o pescoço das empresas,
mas porque acreditam que a empresa irá investir em atividades produtivas o
suficiente de forma a que retornar algum valor ao investidores não será
demasiado oneroso, e porque as empresas sabem que este reembolso possibilita o
acesso continuo a financiamento. O mesmo se aplica a soberanos como os Estados
Unidos ou o Reino Unido, que facilmente contraem crédito em moedas que podem
imprimir a qualquer momento. Nada impede os EUA de imprimir $100
triliões de doláres e entregá-los aos cidadãos, criando um fenómeno de inflação
temporário que praticamente erradica a sua divida corrente. Isto nem
constituiria oficialmente um incumprimento. Mas os EUA estão organizados de uma maneira que convence
os credores de que os seus empréstimos
serão tratados razoavelmente. Dívida inflexível semeia sementes de coerção e
inimizade entre credor e devedor. Acordos semelhantes ao investimento em ações,
incluindo "dívida" expressa em moeda que pode ser impressa à vontade
por parte do devedor, exigem e encorajam confiança e colaboração. A dívida
soberana, em particular, deve sempre assumir a segunda forma, dada a
regularidade com que os empréstimos do governo acabam em contas bancárias de
privados, em vez de serem utilizados para o bem geral do público que
eventualmente poderá ser pressionado a pagar a conta.
A dívida da Grécia
deveria de ser praticamente toda perdoada. O perdão deveria de ser entendido
como um incumprimento, e futuros investidores ficam assim avisados. Os
depósitos em contas bancárias
Gregas cobertos por seguro em contas Gregas deveriam ser assegurados, e
depósitos não segurados deveriam de ser "resgatados". O sistema
bancário da Grécia deveria ser integrado num sistema bancário Europeu muito
mais cuidadosamente regulado que evita o investimento em países individuais,
tanto a Alemanha como a Grécia. Deixe-se os países vender títulos no mercado,
onde os incentivos para a aplicação de crédito cuidadosamente são muito mais
nítidos do que em bancos. Autorize-se os bancos Europeus que querem
instrumentos sem risco a ter claims apenas contra o BCE. Se a Espanha ou
Portugal ou a Itália desejam diminuir ou repudiar a sua dívida existente,
deixe-se, o preço será o futuro acesso ao mercado. Os
países têm a opção de entrar em incumprimento, ponto
final. Os investidores em títulos soberanos têm de praticar preços que
refletem este facto.
Se este
sistema deixar o financiamento demasiado caro a nível europeu, então a UE deve
desenvolver um mecanismo
onde estados estão autorizados a vender títulos de capital ao BCE até um
limite fixo, definido de modo uniforme em toda a Europa em termos per capita.
Vou terminar este passeio com uma
discussão sobre uma visão atualmente na moda que, de facto, a crise na Grécia
não é de todo sobre dinheiro, mas de tirar controlo a um Estado Grego fodido, a
fim de fazer reformas que são, no longo prazo, no interesse do público
Grego.
Qualquer pessoa
familiarizada com finanças corporativas deve estar imediatamente cética em
relação a essa alegação. Um estado não pode ser liquidado.
Em termos de falência, tem de ser
reorganizado. As leis de falência corporativa limitam sabiamente os direitos
dos credores durante reorganizações, porque os credores não têm interesse em
maximizar o valor dos ativos da empresa. O que ganham de qualquer sucesso
futuro é limitado pelo valor do empréstimo que concederam, e o valor que podem
perder é significativo. Por esta razão, eles têm um incentivo para procurar uma
saída o mais rapidamente possível recuperando a maior quantidade de dinheiro
possível. Os incentivos destes credores não estão bem alinhados com a
maximização do valor a longo prazo de uma empresa.
Se fosse 2009, eu poderia ter sido
persuadido de que esta analogia com a falência corporativa é pobre, que o
interesse da Europa no desenvolvimento e coesão de seu império seria mais forte
que incentivos económicos miópicos (que deveriam, em qualquer caso, ser
anulados, uma vez que os incentivos vem de 27 fiscos diferentes). Se os
últimos cinco anos não tivessem acontecido, eu poderia estar aberto ao
argumento
aqui (
platypus ht) de que, tendo alargado o prazo de
vencimento de uma grande quantidade de dívida a um futuro distante, a posição
dos credores é mais similar á de um investidor em ações, uma vez que
o valor que os credores vão
eventualmente recuperar, depende do crescimento a longo prazo da Grécia.
Mas nós tivemos cinco anos para
observar a administração dos credores, sob governos que cumpriram todas as suas
exigências. Este foi o resultado:
PIB Real
 |
| Fonte: Autor |
Apologistas da
euroelite citam o pequeno aumento no final do gráfico para dizer: "Vês! As
coisas iam às mil maravilhas até que o governo do Syriza arruinou tudo em cinco
meses. Só tinham que manter o programa! Estava a resultar! A hora mais escura
vem antes do amanhecer!" Estas pessoas, são educadas e altamente
sofisticadas nas quais se pode confiar. Vejamos o seu repertório:
Previsões da Troika -
PIB Grego
 |
| Fonte: Autor |
A verdade é que
nenhum país, nem a Alemanha nem a França, voluntariamente aceitariam o tipo de
"ajuste" que foi forçado á Grécia, pela boa razão de que Grandes
Depressões grátis não são muito úteis para a economia. Os credores tiveram
cinco anos para gerir mal a Grécia e fizeram um trabalho surpreendentemente
eficaz. O Syriza teve cinco meses para se opor. Por mais que não se goste do
estilo de negociação, por mais que se considere o Syriza incompetente, a
catástrofe da Grécia não foi obra de Syriza. Se os credores responderem á
"intransigência" do Syriza com manobras que causam ainda mais
devastação, a culpa será deles. Culpar as vítimas por ter líderes
insuficientemente perfeitos é padrão para apologistas de predativismo.
Infelizmente, compreender isto trará pouco conforto para a presa estripada.
Os credores da
Europa estão a comportar-se exatamente como se poderia ingenuamente prever que
credores privados se comportariam, procurando extrair o máximo de sangue á
pedra, o mais rapidamente possível, indiferentes ao custo do crescimento de
longo prazo. E isso, na verdade, é um quebra-cabeça! Os credores da Grécia não
são credores ansiosos e em pânico pela sua própria situação financeira, mas instituições do setor
público, principalmente de governos que estão em dificuldades financeira. Eles
realmente não deveriam estar a comportar-se assim.
No entanto acho que
a explicação é muito simples. Tendo transformado uma crise causada por uma
mistura combustível de falhas regulatórias e uma elite corruptível, num jogo de
moralidade sobre Gregos perdulários que devem ser punidos, os eurocratas estão
agora empenhados no que poderia ser descrito como "teatro de
agiotas". Eles estão fazer show para os eleitorados que inflamaram, a fim
de preservar o seu próprio prestígio. And the show must go on.
Durante toda a
crise, as elites europeias enfrentaram uma escolha simples: Reconhecer e
explicar aos eleitores
os seus próprios erros, que nada têm a ver com
virtudes e vícios nacionais, ou reverter ás velhas regras e criar bodes
expiatórios.
Que pessoas
pequeninas.
Nota
do tradutor (David Rebelo):
A versão original deste artigo pode
ser encontrada no blog
Interfluidity
do comentador Steve Randy Waldman. Waldman clarificou em dois artigos seguintes
que:
-
Na sua opinião, o problema fulcral que vê nesta situação
é assimetria entre as consequências sofridas por credores originais (bancos) e
os devedores (Grécia);
- Não culpa a “Franca” ou “Alemanha” ou “Grécia” ou
“Estados Unidos”... Apenas instituições e os seus líderes podem carregar culpa,
não nações.
Este artigo foi traduzido e distribuído
com o consentimento do autor.
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